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segunda-feira, 21 de abril de 2008

o menino que nunca teve um all star

ele tinha vários pares de sapatos, mas o seu maior sonho era ter um all star, pelo menos um e seria verde de cano alto, que era o mais bacana, dizia ele.
após anos de procura, sites, lojas, pedidos a amigos que estavam no exterior e reclamações incessantes no sac, finalmente ele encontra um site argentino. praticamente um sonho! modelos, cores e novas tendências. nem parou para pensar e encomendou então o seu tão esperado desejo de consumo.
foram quase vinte dias de espera, contados.
depois de exaustiva espera, ele chega embalado em uma caixa de correios endereçada em seu nome. não tinha dúvida, finalmente ele conseguira realizar o seu sonho.
era verde de cano alto, como ele sempre sonhou e o mais importante, com a numeração pretendida.
no alto dos seus 27 anos, não se incomodava em realizar esse seu sonho antigo só agora.
depois de estrear seu all star e se sentir como quis, teve outra ambição.
decide se entregar a mais um desafio e se enche de esperança.
entra numa loja de um shopping qualquer e pergunta à vendedora:
­- moça, tem havainas?
- tenho sim. qual número?
- é... é .... 49.
eu torço muito por ele.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

hannah e suas irmãs.


hoje assisti hannah e suas irmãs, indicado pelo meu amigo julio, também woodymaníaco.
o filme gira basicamente em torno da traição do marido "aparentemente" fiel, da hipocondria de Michael Sachs (Woody) e da relação conturbada com a sua ex, claro!
a hanna, impecávelmente interpretada pela Mia Farrow, tem duas irmãs, holly e norma(dianne wiest e Barbara Hershey) a beira dos 40, que enfrentam crises existenciais pastéis que só o woody consegue construir.
os planos sempre suaves, os diálogos bem trabalhados e situações deliciosamente patéticas com aquela atmosfera woodyana. sensacional.
a cena que ele resolve mudar de religião e decide virar católico, compra artigos religiosos e monta um altar em sua casa, é simplesmente impagável.
michael caine levou o oscar de melhor ator coadjuvante em 1987 pela bela interpretação e o woody de melhor roteiro original.
eu não sei porque, mas o woody parece um tio distante que nunca me foi apresentado.
adorei o filme, era o único que ainda não tinha assistido da sua extensa filmografia.
toda vez que assisto um filme dele, fico com aquele sorriso bôbo na cara.
parabéns, tio woody!

quinta-feira, 10 de abril de 2008























todo dia ela faz "quase " tudo sempre igual

ela acorda às 7:30 e sai às 8:30, desvia das 176 fezes caninas diárias do seu bairro .
cumprimenta o cara banca da esquina, afinal faz 2 anos que se vêem diariamente .
e caminha até seu trabalho. no caminho, observa as meninas estudantes de moda neo- classicas- modernas- vintage do inferno, de uma universidade próxima. muitas vezes se inspira em alguma delas, mas para ter certeza que nunca se vestirá assim.
segue seu curso sorrindo e acenando para as figuras que quase sempre cruza pela manhã.
ao chegar em seu trabalho se depara com sua mesa, como de costume cheia de convites de festivais, mostras e pré estreias de filmes que nem se o tarantino fosse buscá-la pessoalmente dirigindo uma kombi da produção do seu filme que supostamente estaria sendo rodado no Brasil, ela iria assistir. ou será que iria com um apelo desses?
de qualquer forma , ela teria o dia inteiro para decidir se iria ou não ao cinema com o tarantino.
que dúvida! ela pôde constatar que o livre arbítrio ia muito além de escolher o leite com café ou nescau pela manhã.
o dia estava apenas começando...

sexta-feira, 4 de abril de 2008

saudosa irmã nézia

com dezessete anos me mudei para piracicaba para cursar comunicação social com habilitação em publicidade e propaganda,na unimep.
não conhecia nada nem ninguém . minha mãe no desespero de encontrar um lugar para eu morar,acabou encontrando um pensionato, que segundo ela, "era de família".
ao chegar pude perceber o quanto era séria a coisa, praticamente um lugar santo!
fui recebida por algumas irmãs de hábito . simpáticas elas. me mostraram meus aposentos, com direito a dar um grande role para conhecer o resto. a coisa era monstruosa de grande, uns 40 quartos , 20 banheiros , uma capela grande , o lugar era surreal.
os quartos com piso frio e grandes vitrais, aliás o lugar inteiro poderia ser descrito assim.
a noite fazia um frio de doer os ossos.
aos poucos fui tentando me enturmar com as meninas, foi difícil porque nunca fui digamos assim "locôna", mas também nunca fui tão normal como elas. eu como sempre, no caminho do meio.
lá existia uma lenda do cavalheiro da capa preta que aparecia à noite. ninguém ia ao banheiro depois das 23:00 a não ser acompanhada por uma comitiva. ou seja corria-se o risco de fazer xixi na cama.
uma bela noite acordei com vontade de ir ao banheiro e mandei o porra do cavalheiro se foder! fui sozinha e o viado não apareceu. nunca encontrei esse desgraçado!
já fazia 2 semanas e nada de conhecer o lendário cavaleiro e a tão temida á irmã nézia, que segundo as universitárias (quase beatas) era a dona daquele império todo.
depois de atravessar aqueles corredores frios e sombrios toda noite sozinha para fazer o meu merecido xixi, fiquei bastante popular por ser a única menina capaz de enfrentar o tal desafio.
mas a minha popularidade aumentou mesmo quando eu levei um litro de 51 para o quarto e fiz nojentas caipirinhas de tang( urgh) . me enjoa só de escrever. as caretinhas piraram e me pediam direto, aí o padrão foi aumentando e fui traficando capeta, cuba libre e por aí vai.
um dia acordo com um "hum – hum" . no que acordei, senti o que os católicos chamariam de pecado, os espíritas de provação e os evangelhos de coisa do demônio. era ela , de hábito, uns 75 anos e os cabelos impecavelmente pintados de violeta.
ela estava segurando uma garrafa de 51 , que por sinal era minha.
e disse:
_ o que isso está fazendo em seu guarda- roupas?
e eu fiz o que toda alcoolatra juvenil em começo de carreira faria. pulei nela e tomei a força a garrafa dizendo que era invasão de privacidade.
depois de olhares "with lasers" acabei me rendendo e entregando a garrafa. e foi assim o nosso primeiro encontro.
depois de dois dias ela me chamou em sua sala e me disse que eu iria acompanhá-la na próxima missa dominical, onde nunca tinha nem passado perto da capela.
no domingo estávamos lá nessa ordem: irmã nézia , eu e irmã fátima. quando entrei fui fuzilada por olhares curiosos . acho que quando alguém entrava com a irmã para uma missa era porque a jurupoca tinha piado.
algumas semanas depois eu mesma pedi para falar com a Irmã nézia em sua sala.
disse a ela que queria sair pois não havia me adaptado as regras do pensionato.
ela me abraçou de me desejou muita sorte e que a paz de deus estivesse sempre comigo.
saí de lá e fui para uma nova empreitada. aluguei um ap com mais quatro meninas que tinham o limite entre a loucura e a sanidade bem próximo ao meu.
elas fuçavam sim no meu guarda-roupas para pegar a cachaça, mas com outros propósitos, bem diferentes dos da querida e saudosa irmã nézia.


terça-feira, 1 de abril de 2008


ele me disse que mudou ...


ele me disse que mudou, que estava tocando muito com uma banda de jazz "du caralho"...

...e eu acreditei!

depois começou a falar sobre coltrane, charlie parker, pat metheny, miles davis e por aí vai...

incrível como uma conversa que me fascinava tanto se tornou um discurso tedioso e maçante.

eu juro que num passado remoto eu perderia horas, dias, vidas, deixando aquele homem me seduzir com sua musicalidade.

- mais um café? - disse ele

aceitei.

quem diria! o ex-casal esponja acompanhado de singelos cafés e apetitosos amanteigados.

as coisas fatalmente mudam!

de repente aquele silêncio desconfortante tomou conta. não conseguia mais disfarçar minha cara de tédio, apesar de sorrir levemente e concordar com a cabeça (como o meu amigo luizinho me ensinou para disfarçar a cara de merda), mas falhei.

nos despedimos como dois desconhecidos numa esquina qualquer - como profetizou a sua mãe anos atrás:

- vocês se reencontrarão em alguma esquina da vida. eu torço por isso.

realmente nos encontramos na esquina da vida, mas para continuarmos seguindo direções opostas.

sexta-feira, 28 de março de 2008

...




toquei o interfone e esperei. passaram-se oito minutos e toquei novamente .esperei paciente, como de costume , sempre adiantada. estava ansiosa, pois pedi para que aquela conversa fosse antecipada o mais rápido possível, não ia suportar tanta angústia e sofrimento por mais tempo.
ela abriu a porta com um sorriso terno e amigável. coitada, mal sabia o que viria pela frente.
sentei - me de frente para ela na minha poltrona predileta, com uma vontade infernal de fumar, mas havia prometido que não fumaria mais em sua presença. tentei enganá-la, tentei me enganar, mas é incrível como o discurso some quando o trazemos ensaiado.
disse muito, não disse nada. e ela sempre querendo me dizer coisas que me aquecessem o coração, mas dessa vez não adiantou. eu já estava decidida, mas quando ia falar, algo mais forte me travava, me fazia desviar a atenção para a sua gata, a sua luminária, para o seu corte de cabelo que esqueci de elogiar.
então desisti de resistir e resolvi ir embora sem falar nada. na porta ela me abraçou e disse que tudo iria passar , senti no seu olhar que ela sabia o porquê da minha urgência e por um minuto achei que ela me pouparia de todo o trabalho.
retribuí o abraço na esperança de que aquilo tudo ficaria para trás. me despedi e quando cruzei o portão ela me chamou e disse que havia se esquecido de dizer uma coisa importante:

“ feliz páscoa!” até semana que vem no mesmo horário. hein?
e segui andando ... até o luminoso do seu consultório sumir do meu campo de visão.